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Texto Bob Hoffman

 “A Síndrome do Amor Negativo e o Modelo da Quadrinidade”
Um Caminho para a Liberdade Pessoal e o Amor

Bob Hoffman

Baseado em “A Síndrome do Amor Negativo”, um ensaio de Bob Hoffman, copyright © 1984 do Instituto Hoffman. Revisado e editado, © 2000 do Instituto Hoffman. Todos os direitos reservados. Este ensaio ou partes dele não pode ser reproduzido de nenhuma forma sem a permissão escrita do Instituto Hoffman. Os termos “Amor Negativo”, “Processo da Quadrinidade”, “Instituto Hoffman” e o logotipo são marcas comerciais do Instituto Hoffman, internacionalmente registradas.  

Introdução

Todo ser humano, no âmago, encerra a compreensão de que o Amor é a essência de uma vida realizada. Esta mensagem aparece fundamentalmente em todas as tradições religiosas do mundo. Ainda assim, no curso de minha experiência de vida, perguntei-me várias vezes porque há tanto desacordo e negatividade nas relações humanas? Tinha de haver alguma coisa errada a respeito de nossa compreensão usual sobre o amor e as emoções, inclusive as ações e relacionamentos que se desenvolvem a partir deste mal-entendido. Os sentimentos de amor e afeição têm enorme poder sobre todos os aspectos de nossa vida, afetando e colorindo nossos comportamentos aparentemente racionais, algumas vezes tirando-os de controle. Meu trabalho levou-me a descobrir um mal-entendido fundamental sobre amor emocional e, na revelação, também descobri um caminho para recuperar nossa habilidade inata de amar e nos tornar adultos completamente integrados. 

Durante muitos anos trabalhei sozinho como um intuitivo espiritual, com um pequeno número de pessoas que vinham a mim em busca de cura. Através de contato com psicoterapeutas aprendi que, enquanto uma enorme quantidade de esforço havia sido despendida para a efetivação do condicionamento parental, muito pouco havia sido feito para compreender a motivação das crianças para imitar os comportamentos negativos de seus pais. Eu tive a intuição de que era isto o que se encontrava na raiz da infelicidade daqueles que recorriam a mim. Uma compreensão mais completa me ocorreu em 1967 e, em conseqüência disto, formulei os modelos e conceitos que são os fundamentos do Processo da Quadrinidade.

Estes, portanto, representam meus insights específicos dentro dos trabalhos da mente humana que podem parecer familiares à medida que os descrevo. Eu cunhei a palavra Quadrinidade para representar nossa totalidade integrada, quando todos os quatro aspectos de um ser humano, os componentes emocional, intelectual, físico e espiritual estão em equilíbrio harmonioso. As capacidades e funções singulares de cada aspecto podem ser consideradas separadamente, mas é o equilíbrio de todos os aspectos trabalhando juntos harmoniosamente que nos realiza como seres humanos.

Tem sido minha experiência, que a maioria das pessoas, certamente aqueles dentre nós expostos à cultura ocidental, dá autoridade primordial ao intelecto, tanto aos nossos próprios intelectos quanto aos das autoridades selecionadas por nossa história, religiões ou visão do mundo científico. O grande físico Albert Einstein certa vez disse: “Deveríamos tomar cuidado para não transformarmos o intelecto em nosso deus; ele tem músculos poderosos, sem dúvida, mas não personalidade. Ele não pode liderar, ele só pode servir.” (Lewis, 32)

Embora reconheçamos que temos um corpo físico e muitos admitamos que somos seres espirituais, geralmente menosprezamos ou mesmo desconsideramos qualquer papel positivo para o aspecto de nosso ser emocional adulto. Mesmo com todo nosso treinamento e educação, ainda tendemos tanto a negligenciar nossas emoções, quanto a lutar contra elas, abusando de sustâncias ou de comportamentos inapropriadamente. Na maioria das vezes, quando adultos, meramente toleramos a existência infantil e lamentável de nossas emoções. Esta situação é a base do que identifiquei como a “Síndrome do Amor Negativo”.

Eu vi que as pessoas começam realmente a se compreender de uma nova maneira tão logo reconheçam como a Síndrome do Amor Negativo foi ativa na vida delas, ao lado de suas causas, sentimentos, atitudes e comportamentos que ficam, em sua maior parte, abaixo do nível de nossa experiência consciente do dia a dia.

Por isso, o convido para se relacionar com as idéias apresentadas aqui de uma maneira pessoal, como a criança que você foi. À medida que você recebe as informações seguintes e faz os exercícios incluídos, permita-se experimentar as emoções que surgirem, tão plenamente quanto o possível. Este será o início da compreensão, de um modo vivencial, de sua própria verdade emocional e espiritual.

Embora estejamos investigando a fonte de sua programação emocional negativa, este ensaio não é uma acusação contra você nem contra seus pais. O que se segue aqui pode ativar e evocar memórias da infância, inclusive algumas de que você pode ter se esquecido. A intenção é lhe dar um gosto da liberdade pessoal que é possível. No mínimo, espero que você encontre uma compreensão mais profunda de si mesmo e de seus pais. Você pode até mesmo descobrir alguma coisa surpreendente sobre você enquanto lê do início até o fim.

A QUADRINIDADE É UM MODELO PARA O SER INTEGRAL

A Quadrinidade é uma estrutura para a compreensão do comportamento e do desenvolvimento humano. Todos os quatro aspectos do eu: Eu Espiritual, Corpo Físico, Eu Emocional e Intelecto estão inter-relacionados. A interação deles produz integração e harmonia interior.

Por milhares de anos os seres humanos têm tentado compreender e chegar a um acordo a respeito do mistério da própria vida e da criação. Uma noção duradoura mantém que a “fonte” de tudo é um ser ou espírito não físico, inteligente e amoroso e que somos conectados com este espírito. Aldous Huxley chamou a isto de “Filosofia Perene”. Embora a maneira exata de que as pessoas vêem esta inteligência superior varie de época para época e de cultura para cultura, o conhecimento de sua existência persiste, mesmo com a ascendência da ciência e da tecnologia.

Ken Wilber descrevia a “filosofia perene” do seguinte modo: “A realidade, de acordo com a filosofia perene, não é unidimensional; não é uma região insípida feita de substância uniforme distendida monotonamente diante dos olhos. Melhor, a realidade é composta de várias dimensões diferentes, porém contínuas. A realidade manifesta... consiste de diferentes graus ou níveis... Por um lado, este continuum de ser ou espectro de consciência é o que nós no ocidente chamamos “matéria” e por outro lado é “espírito”, “mente divina” ou “super consciência”.” (Wilber, 39)

Os seres humanos sempre procuraram caminhos para se conectarem ou entrarem em comunhão com esta presença. Usaram muitos nomes para descrever esta experiência. Alguns a chamam de Deus, outros de “Presença Eterna”. Muitos também descrevem a experiência com Ele como êxtase, alegria, clareza, felicidade, paz interior, plenitude e amor. Mesmo um só momento de tal experiência pode transformar a vida. Eis o Ralph Waldo Emerson disse: “Nossa fé surge em um momento; nosso vício é habitual. Contudo há uma profundidade naqueles momentos que nos constrange a atribuir mais realidade a eles do que a todas as outras experiências... A todo o momento eu me sinto impelido a reconhecer uma origem mais elevada, do que o desejo que chamo meu.” (O Além-Alma)

A experiência é freqüentemente reportada como a visão de uma luz ofuscante, embora brilhante e pura. O medo da morte é muitas vezes suprimido. Muito tem sido escrito sobre aqueles que perto da morte recordam de emergir da escuridão em uma luz magnífica e amorosa com paz e amor esperando por eles. Aqueles que tiveram tal experiência descrevem-na como se estivessem na presença de “Deus”. Eles também reportam imagens mentais em que uma figura simbólica como um profeta assume o papel de amigo, protetor, mentor, guia espiritual ou professor. Pode ocorrer comunicação mental com este ser, conferindo conforto, sabedoria e conhecimento.

As pessoas têm procurado meios de se conectar e manter comunicação com esta presença. Alguns tiveram sucesso através de várias formas de prática espiritual. Em 1976, eu vim a entender que, porque somos desta Luz, seríamos capazes de nos comunicar e fazer contato com ela diretamente e à vontade, sem intermediários. Para facilitar isto desenvolvi a “Visualização da Viagem da Luz”, através de que qualquer um pode entrar na Luz da paz e compaixão. Esta experiência provou ser profundamente tocante. Se desejado, virtualmente qualquer um pode experimentar estar na Luz e seus Eus Espirituais como sendo da Luz.

Na Luz sabemos que nossa essência é perfeita e que não somos negativos, a despeito da programação negativa que utilizamos em nossa existência diária. A experiência de estar na Luz traz nossos Eus Espirituais para a posição de vanguarda. Deste modo, nosso corpo físico, incluindo o cérebro, pode se tornar aliado para ajudar a trazer paz aos outros dois aspectos de nossa mente, o perturbado aspecto emocional e o mal-educado intelecto. Ela nos permite transcender nossos padrões negativos e abrir a porta para a integração, um modo de ser mais positivo, pacífico e produtivo. Vimos a experimentar a nós mesmos como inatamente amorosos e a aprender a nos libertar do Amor Negativo. “Enquanto o amor é uma disposição para dar, nascido da abundância, o “amor negativo” só quer receber, enraizado na deficiência...”

(Naranjo, 5)

As visualizações podem nos dar acesso às verdades subjacentes de nossa Quadrinidade. Ordinariamente estamos como que inconscientes da Luz, como estamos inconscientes das fontes de nossas emoções negativas. No Processo da Quadrinidade usamos visualizações dirigidas (imaginação dirigida) para fazer contato consciente com nossos processos mentais inconscientes (e atividades) para conseguir acesso a nossos verdadeiros sentimentos, tanto direta quanto simbolicamente ou ambos. Quando ganhamos acesso ao inconsciente descobrimos tanto o eu não condicionado quanto o eu condicionado. À medida que começamos a experimentar nosso Eu Espiritual (em dimensão espiritual), reconhecemos nossa bondade fundamental e começamos a jornada em direção ao Ser Integral.

OS QUATRO ASPECTOS DO SER:

A QUADRINIDADE

Para ajudar a compreender a grande complexidade do eu, seu desenvolvimento e os problemas resultantes da adoção do Amor Negativo, uso três distintas combinações dos aspectos do eu: a Dualidade, a Trindade e a Quadrinidade.

A Dualidade se compõe dos dois aspectos mentais do eu, negativamente programados: o eu emocional e o eu intelectual combinados como uma entidade, ainda que possam também ser visualizados separadamente.

Refiro-me aos três aspectos de nossa mente como a Trindade: o eu emocional, o eu intelectual e o eu espiritual. Eles podem ser visualizados como uma entidade embora cada aspecto possa ser visualizado separadamente.

                              

A Quadrinidade é uma estrutura, um modelo para compreender a nós mesmos e a nosso comportamento que inclui todos os quatro aspectos do eu: corpo, emoções, intelecto e eu espiritual. A Quadrinidade é nosso Eu total, integrado, equilibrado, personificando todos os quatro aspectos. Estes quatro aspectos estão inter-relacionados e formam um complexo sistema interativo.



                           

EU FÍSICO

O corpo é um sistema biológico. O corpo, incluindo o cérebro, é o lugar físico de moradia para os três outros aspectos do eu. Através do corpo atuamos e manifestamos os sentimentos do eu emocional, os pensamentos do intelecto e a presença do eu espiritual.

As características do EU FÍSICO são as seguintes:

  • Composto dos elementos do universo físico e sujeito a suas leis e condições físicas
  • Portador da informação genética
  • Interconectado com a mente através de feedback neurológico e bioquímico
  • Funciona nos domínios do sentido, da ação e da comunicação
  • Expressa, através do comportamento, pensamentos e sentimentos
  • Repositório para as memórias de todas as experiências, incluindo pensamentos e sentimentos
  • Manifesta os sintomas físicos dos conflitos não resolvidos entre o intelecto e as emoções


                                  

EU EMOCIONAL

O Eu Emocional expressa a extensão total dos sentimentos e emoções através do corpo físico. É onde, em primeiro lugar, os padrões do Amor Negativo se manifestam progressivamente e, junto com o Intelecto, residem. O Eu Emocional Negativo é definido como “infantil”. Não tem senso de tempo ou espaço. Ele regride imediatamente.

+ (características positivas)

  •  
    • Comunicativo
    • Curioso
    • Brincalhão
    • Alegre
    • Senso de Humor
    • Espontâneo
    • Audaz
    • Reconhece a si / aos outros

  •  
    • Sente tristeza


  •  

      - (padrões negativos)

  •  
    • Defensivo
    • Rebelde
    • Retraído / Teimoso
    • Vergonha / Culpa
    • Raiva / Ansiedade
    • Rígido
    • Medroso / Cauteloso
    • Indigno de ser amado / não merece
  • Triste / Deprimido


                        

EU INTELECTUAL

O Eu Intelectual, nosso processador de pensamento lógico e solucionador de problemas, inclui o que e como pensamos, nossas visões do mundo, valores e crenças. Junto ao Eu Emocional, o Intelecto é onde os padrões de amor negativo vivem. Deves, não deves, faças, não faças, podes, não podes, etc., residem no intelecto, podendo ser positivos ou negativos. São negativos quando compulsivos. A seguir, algumas qualidades do Intelecto:

  •  

      + (positivas)

  •  
    • Racionalidade
    • Compreensão
    • Cultura
    • Criatividade
    • Lógica / Síntese
    • Análise
    • Avaliação
  •  

      - (negativas)

  •  
    • Crítica
    • Racionalização
    • Julgamento
    • Defensibilidade
    • Argumentação / Engano
    • Justificação
    • Admoestação

                          

EU ESPIRITUAL

O Eu Espiritual é o aspecto puro do eu, não programado, não intercedido, positivo, presença acessível, desejoso de personificar nossa mais ampla e verdadeira natureza neste mundo. Nosso Eu Espiritual ressoa em harmonia com o Universo.

  • Intuitivo, responsivo e não condicionado, conectado
  • Sábio, sempre se desdobrando e crescendo, movendo-se em direção à totalidade
  • Intencional, corajoso
  • Criativo
  • Todo amoroso, compassivo e perdoador
  • Calmo, estabilizado e centrado
  • Aspira à bondade, à verdade e à justiça
  • Mediador, integrador
  • Íntegro, completamente ético (distingue o certo do errado)
  • Fonte de Força




AMOR NEGATIVO

O Amor Negativo é a dor passada de geração a geração.

Todos são culpados e ninguém tem culpa.

Todos nós temos humores, atitudes e comportamentos negativos que emanam de um nível emocional muito profundo, que refletem nosso sentimento de sermos indignos de ser amados. Todo dia, em todas as áreas de nossa vida, demonstramos necessidades, preconceitos e atitudes emocionais negativas. Inconsciente e automaticamente, demonstramos nossa programação infantil negativa repetidamente. A dor e o conflito causados por estas atitudes, sentimentos e comportamentos negativos, resultaram em sofrimento pessoal e injustiças sociais, afetando cada um de nós todos os dias, tanto pessoal quanto coletivamente.

Entre os mamíferos, os humanos requerem o mais longo período de cuidado e educação. De fato, não podemos sobreviver a nossos primeiros anos sem contínuo cuidado físico e emocional dos pais. Nossas vidas dependem do cuidado e educação que recebemos de nossos pais, tanto emocional quanto fisicamente. Os filhos precisam sentir que não serão abandonados e que são amados e validados por seus pais ou figuras parentais.

Quando bebês recém nascidos, amor e afeição eram tão vitais para nós quanto alimento e proteção. Para vicejar, precisávamos de um fluxo contínuo de amor incondicional de mamãe e de papai. Nascemos com necessidades que deveriam ser satisfeitas por nossos relacionamentos parentais. O psicanalista britânico John Bowlby, nos anos 50, desenvolveu o que ele chamou de “teoria da fixação”, que é discutida no notável livro Uma Teoria Geral do Amor. Os autores, Lewis, Amini e Lannon explicam:

“Bowlby teorizou que os bebês humanos nascem com um sistema cerebral que promove segurança ao estabelecer um vínculo comportamental instintivo com suas mães. Este vínculo produz angústia quando a mãe está ausente, assim como o impulso para os dois se procurarem um ao outro, quando a criança está amedrontada ou em sofrimento”.(p. 70)

E ainda:

“As mães modelam seus filhos de maneiras duradouras e mensuráveis, conferindo a eles alguns dos atributos emocionais que eles possuirão e em que confiarão, para benefício ou detrimento deles, pelo resto de suas vidas”.(p.75)

Em toda situação em que nós, quando crianças, experimentamos o amor dos pais sendo interrompido, p.ex., divórcio, abandono, morte, prisão ou o amor deles se tornando condicional, o vínculo parental ficava rompido para nós. Nós nos sentíamos indignos de ser amados, como se uma parte nossa sufocasse e morresse. A causa básica da inabilidade de nos relacionar conosco mesmo e com os outros com amor é este verdadeiro estado de nos sentirmos indignos de ser amados que eu chamo de Amor Negativo.

Para entendermos nossa programação negativa, temos de ver o mundo através dos olhos de uma criança, a criança que éramos antes de termos qualquer escolha ou opção, antes de termos um intelecto mediador. John Bradshaw explica porque os bebês necessitam de amor incondicional, da seguinte maneira:

“As crianças são ... egocêntricas. Isto não significa que elas sejam egoístas no sentido usual da palavra. Elas não são moralmente egoístas. Elas nem mesmo são capazes de pensamentos morais até mais ou menos sete ou oito anos (a assim chamada idade da razão). Inclusive nesta idade o pensamento delas ainda tem elementos egocêntricos definidos ...”.

Pensamento egocêntrico significa que uma criança tomará tudo pessoalmente ... . O impacto de não receber tempo de um dos pais cria o sentimento de ser sem valor. A criança tem menos importância do que o tempo, a atenção ou a autoridade de seus pais. O egocentrismo das crianças pequenas sempre interpreta os fatos de modo egocêntrico. Se Mamãe e Papai não estão presentes, é por minha causa. Deve haver alguma coisa errada comigo ou eles desejariam estar comigo.

As crianças são egocêntricas porque não tiveram tempo de desenvolver limites do ego. O limite do ego é uma força interna pela qual uma pessoa protege seu espaço interior. Sem limites, uma pessoa não tem proteção. Um limite forte é como uma porta com a maçaneta do lado de dentro. Um limite de ego fraco é como uma porta com a maçaneta do lado de fora. O ego de uma criança é como uma casa sem nenhuma porta.

As crianças são egocêntricas por natureza (não por escolha). O egocentrismo delas é como uma porta e uma maçaneta provisórias, em uso até que fortes (saudáveis) limites possam ser construídos. Limites fortes resultam da identificação com os pais que têm, eles mesmos, limites fortes e que ensinam a seus filhos através do exemplo. As crianças não têm experiência, elas necessitam da experiência de seus pais. Pela identificação com seus pais, elas têm alguém fora delas mesmo, de quem podem depender. À medida que elas internalizam seus pais, formam um roteiro seguro dentro delas mesmo. Se os pais não forem confiáveis, elas não desenvolverão este recurso interno.

As crianças precisam ser espelhadas e ecoadas. Estas necessidades surgem a partir dos olhos das primeiras pessoas que cuidaram delas. Espelhar significa que alguém está aí para elas e reflete quem elas realmente são, a qualquer dado momento. Nos primeiros três anos de nossa vida cada um de nós necessitou ser admirado e levado a sério. Necessitávamos ser aceitos pela verdadeira unicidade que éramos”. (Bradshaw, 43)

Quando crianças, procurávamos ter nossas necessidades amorosas satisfeitas exclusivamente dentro da família. Se o comportamento de nossos pais, de alguma maneira, transmitisse ameaças ao nosso bem estar, se eles expressassem raiva, impaciência, desprezo, indiferença, negligência ou se abusavam de nós de qualquer maneira, sentíamos que havia alguma coisa de errada conosco. Quando crianças, supúnhamos que nós estivéssemos errados, não eles. Pouco a pouco passamos a experimentar o mundo como um lugar perigoso ou até mesmo hostil.

O abandono ou rejeição por parte dos pais literalmente incrementa o espectro da morte para a desamparada criança dependente. Quando crianças, emocionalmente rivalizávamos (i.e. adotávamos e internalizávamos) as negatividades de nossos pais a fim de garantir proteção permanente contra o abandono ou rejeição deles. Os filhos não podem reconhecer ou admitir as inadequações ou erros dos pais porque este reconhecimento evocaria uma ansiedade insuportável.

A reconhecida psiquiatra Karen Horney identificou estes sentimentos de insegurança infantil como “ansiedade básica”. Ela observou:

“Um amplo espectro de fatores adversos no meio ambiente [da criança] pode produzir esta insegurança na criança: dominação direta ou indireta, intolerância, comportamento imprevisível, falta de respeito pelas necessidades das crianças, falta de orientação, atitudes depreciativas, admiração demais ou a ausência dela, falta de emoção confiável, ter de tomar partido nas discussões dos pais, responsabilidade demais ou de menos, superproteção, isolamento de outras crianças, injustiça, discriminação, promessas não cumpridas, atmosfera hostil etc...” (Horney, 41)

Junto ao sentimento de insegurança está o senso que muitos pais têm de que maus-tratos é “bom” para os filhos. Alice Miller, em Para seu Próprio Bem, observou:

“... a nós não era sequer permitido estar conscientes de que tudo isto estava acontecendo conosco, visto que todos os maus-tratos eram mostrados para nós como sendo necessários para nosso próprio bem. Nem mesmo a criança mais inteligente pode ver através de tamanha mentira se ela vem de seus amados pais que, afinal de contas, mostram a ela outros lados também. Ela tem de acreditar que a maneira pela qual está sendo tratada é verdadeiramente certa e boa para ela e que ela não a usará contra seus pais”.(Miller, 247-248).

Nossa experiência primária com nossos pais tem um profundo efeito sobre nossas vidas, moldando a auto-imagem, atitudes, humores e comportamento. Desenvolvemos estratégias de sobrevivência e orientações de vida como resultado de nosso condicionamento. Não somente somos incapazes de reconhecer ou admitir os erros ou abuso de nossos pais, como imitamos seus erros e inadequações (atitudes, humores e comportamentos) a fim de sermos aceitos por eles.

Mais do que meramente representar papéis, os pais são tudo para as crianças pequenas, manifestando-se de maneira tão ampla como até se mostrarem aparentemente bons. Quando crianças, nós nos identificamos completamente com nossos pais. Mas pais são somente humanos, com padrões de comportamentos negativos assim como positivos. Quantas vezes você já pensou ou disse: -“Eu me pareço exatamente como meu pai”. “Meu Deus, estou ficando igualzinha a minha mãe”. “Minha Mãe (e / ou Pai) costumava fazer isto. Eu odiava quando ela fazia e agora estou fazendo também”.

É claro, não somos nossos pais, mas o que então impulsiona a poderosa compulsão inconsciente para sermos como eles? O primitivo, mas inocente intento de acabar com o senso de separação deles que experimentamos quando crianças, quando eles estavam sendo negativos. Isto ocorreu inconscientemente. Não sabendo nada melhor, espontaneamente adotamos os padrões negativos deles como nossos próprios, para ganharmos o amor deles.

A SÍNDROME DO AMOR NEGATIVO É A ADOÇAO DOS COMPORTAMENTOS, HUMORES, ATITUDES E ADMOESTAÇOES NEGATIVAS (ABERTAS OU ENCOBERTAS) DE NOSSOS PAIS PARA NOS ASSEGURAR DO AMOR DELES. ISTO INCLUI A SUBSEQÜENTE MANIFESTAÇÃO OU REBELIÃO COMPULSIVA CONTRA ESTES TRAÇOS NEGATIVOS, DO INÍCIO ATÉ O FIM DE NOSSAS VIDAS DE ADULTOS.

Na infância, competimos, adotamos e internalizamos (introjetamos) os comportamentos, humores e atitudes negativas de nossos pais para sermos como eles, desse modo eles nos aceitariam e amariam. Em um ensaio sobre o Processo da Quadrinidade, o notável autor e psiquiatra Claudio Naranjo escreveu:

“A idéia de Hoffman de que a criança adota os traços dos pais a fim de ser amada ... [tanto] admite a necessidade de amor como a origem básica da identificação, [quanto] sugere a hipótese, na mente da criança, de que se ela fosse como seus pais, obteria o amor que ela não está experimentando sendo meramente ela mesma”. (Naranjo, 7).

Mais tarde, em nossas vidas de adulto continuamos compulsivamente a utilizar padrões negativos da infância numa contínua tentativa de sermos amados. Ainda que saibamos que há alternativas para nossas negatividades e ainda que reconheçamos em algum nível que estes comportamentos não podem nos trazer felicidade, continuamos a utilizá-los. Os padrões do amor negativo, ainda que inconscientemente motivados por nossa profunda necessidade de amor, produzem alienação e / ou rejeição Então, quando nossos comportamentos negativos não produzem o amor que desejamos e necessitamos, culpamos os outros e nos tornamos vingativos. Com efeito, queremos desforra por não sermos amados e aceitos e, assim, tornamo-nos ainda mais magoados diante de nós mesmo e dos outros. Isto nos leva ao remorso, culpa e vergonha que reforçam a crença de que somos essencialmente defeituosos. No devido tempo, nossos próprios filhos adotam nossos padrões a fim de se assegurarem de nosso amor e a Síndrome do Amor Negativo é legada à geração seguinte.

Ao vivenciarmos estas negatividades adotadas, obscurecemos nossa inata essência verdadeiramente amorosa, da mesma forma como nossos pais fizeram. Para a transformação acontecer, primeiro devemos nos tornar conscientes dos aspectos negativos de nossas vidas. Somente então a saída se torna realmente possível. A chave é a consciência de que adotamos os traços negativos de nossos pais. Qualquer coisa adotada também pode ser liberada. O Processo Hoffman da Quadrinidade nos ensina como soltar e solucionar os persistentes sentimentos negativos de não sermos amados e de nos sentirmos indignos de ser amados. A saída é uma tarefa desalentadora: temos, de alguma forma, de transcender os traços negativos de nossos pais sem sentir conflito interno. Para conseguir isto devemos ter coragem para um honesto auto-exame e aceitar este desafio de todo o coração.

Retornaremos à transcendência da Síndrome do Amor Negativo depois de termos considerado mais os mecanismos pelos quais adotamos os padrões do Amor Negativo.

ADOÇÃO E REBELIÃO CONTRA PADRÕES DO AMOR NEGATIVO

A adoção dos padrões dos sentimentos e condutas de Mamãe e Papai começa de forma pré verbal no útero da Mamãe e acelera depois do nascimento. A programação negativa continua até a puberdade, tempo pelo qual já adotamos, ou nos rebelamos contra, virtualmente todos os comportamentos, humores e atitudes de nossos pais e pais substitutos. Então os carregamos para a maturidade como se fossem nossos próprios.

Há dois caminhos básicos pelos quais assumimos padrões, comportamentos, humores e admoestações negativas:

  1. Adoção.

Inconscientemente adotamos os traços de nossos pais e os espelhamos de volta para sermos como eles, assim eles nos amarão. Por exemplo, ao se adotar o traço negativo de ser “crítico”, torna-se autocrítico, crítico dos outros e /ou cria situações para os outros serem críticos com ele /ela. (Se for um traço de ambos, Pai e Mãe, ele é duplamente devastador.).

  1. Adoção + Rebelião = Conflito. A Adoção do traço mais a Rebelião contra ele cria um conflito interno de vaivém.

Inconscientemente adotamos o traço negativo de nossos pais, mas não gostamos do traço nem de suas conseqüências. Então suprimimos a expressão aberta deste traço e nossos sentimentos sobre ele. Aprendemos a expressar um comportamento alternativo. Isto provê a ilusão de liberdade e de desenvolvimento.

Continuando nosso exemplo, se adotássemos o traço de ser crítico, mas a um dado momento perdêssemos o gosto pelas atitudes e comportamentos que, como pessoas críticas, trazemos para nossas vidas, tentamos então ser aprovadores e não julgadores. Atuar com a alternativa, entretanto, não acalma a voz negativa dentro de nós. Somos empurrados para duas direções opostas. Eu me refiro a isto como um conflito de vaivém. Talvez, em uma ocasião, atuemos com o comportamento adotado, da próxima vez o comportamento alternativo. Esta oscilação cria até mesmo mais ansiedade e conflito.

Tenha em mente que a fim de nos mantermos leal a cada um deles, devemos representar ambos os papéis, adotando cada um dos traços deles. Por exemplo, suponha que sua Mãe fosse tranqüila e pacifica. Ela nunca expressa raiva. Papai, por outro lado, era hostil e agressivo. Externamente, você pode se comportar como sua mãe, mas a supressão da hostilidade de Papai é como um vulcão latente retumbando por dentro, esperando pelo momento apropriado para entrar em erupção. Alem disso você pode ser como Mamãe, incompetente para lidar com a raiva embora tendo pessoas raivosas em volta dela.

A adoção e o conflito são claramente demonstrados com os derradeiros exemplos. É bem documentado que adultos molestadores de criança foram eles mesmos crianças molestadas. Em sua angústia elas podem jurar: “Quando crescer e tiver filhos, nunca baterei e serei cruel com eles, como minha Mamãe e Papai foram comigo”. Quando se tornam adultos e têm filhos, entretanto, são freqüentemente inábeis em se mostrarem à altura destas intenções e terminam espancando e molestando seus filhos.

Enquanto estão molestando seu filho, a criança emocional deles mesmos, está lastimando subliminarmente para sua Mãe e seu Pai: “Veja, Mamãe ou Papai, estou magoando e batendo em meu filho exatamente como você me magoou. Sou igualzinho a você. Agora você vai me amar?” (E se eles conseguem controlar a tendência de molestar seus próprios filhos, o impulso compulsivo emocional por trás desta programação é canalizada em outras formas de comportamento que são danosas para eles mesmos ou para os outros.)

O CÍRCULO VICIOSO DA ADOÇÃO DOS PADRÕES NEGATIVOS

Para ilustrar os estágios da adoção dos traços do Amor Negativo, vamos usar os padrões de “desatenção / desamor / desapoio” e investigar a lógica circular autofrustrante da programação. Imagine uma situação da infância onde sua mãe e / ou seu pai não demonstre afeição e amor tanto entre eles, quanto para você ou ambos. Você aprendeu e adotou este comportamento.

O esquema seguinte ilustra o círculo vicioso.

Reagindo inconscientemente, você escolhe qualquer um:

  1. Adoção: “Mamãe, Papai, sou igualzinho a vocês, não amoroso e indigno de ser amado. Agora vocês vão me amar?”
  1. Vingança: “Eu não me importo com o que aconteça comigo contanto que eu me desforre de você”.
  1. Vergonha: “Oh, não! Agora eu fiz. Você nunca vai me amar. Sinto-me culpado e envergonhado de ser tão cruel. Sou verdadeiramente mau e indigno”.
  1. Auto-sabotagem e autopunição: “Vou me certificar de que ninguém me ama para provar a você que eu sou indigno de ser amado, exatamente como você me ensinou”.
  1. “Para manter minha condição de ser indigno de ser amado, adotarei todos os seus traços negativos, Mamãe e Papai, e os usarei para brigar e rejeitar minha própria essência positiva. Aí eu serei igualzinho a vocês. (Auto-sabotagem e autopunição)”.
  2. “Agora vocês vão me amar? Sou igualzinho a vocês”.Vingativamente isto espelha o padrão de volta para eles. O resultado final é mais autopunição.
  1. Então, está de volta ao passo um de novo e de novo...

Isto é um círculo vicioso. Adotamos os traços negativos para conseguir amor, mas o resultado da adoção dos traços negativos é que nos sentimos indignos de ser amados e não podemos dar nem receber amor. Quanto mais tentamos ser amados, mais indignos de ser amados nos tornamos. O Amor Negativo nos impele continuamente para a auto-sabotagem ao nos forçar a rejeitar os outros ou a sermos rejeitados por eles.

Em O Príncipe das Marés, Pat Conroy descreve o espectro total do Amor Negativo. Você pode traçar os padrões adotados por este personagem?

Eu desperdicei aproximadamente trinta e sete anos por causa da imagem que mantive de mim mesmo. Eu me embosquei ao acreditar, ao pé da letra, a definição de meus pais a meu respeito... Meus pais tiveram sucesso em me tornar um estranho para mim mesmo. Eles me transformaram na imagem exata do que necessitavam na época e, porque havia algo essencialmente complacente e ortodoxo em minha natureza, permiti que eles me amassassem e me modelassem nos suaves esboços da sua criança sem par. Eu fiquei fiel às medidas da visão deles... Eles tiveram sucesso não só em me tornarem normal, mas também em me tornarem estúpido. Mas o seu presente mais injusto, nem eles souberam que estavam me concedendo. Eu ansiava pela sua aprovação, pelo seu elogio, pelo seu puro amor descomplicado por mim e procurei por ele durante anos mesmo depois que compreendi que eles não seriam sequer capazes de me deixar ter este amor. Amar seu filho é se amar e este era um estado de graça negado a meus pais de berço e circunstância. Eu necessitava me conectar novamente a algo que havia perdido. Em algum lugar eu havia perdido o contato com o tipo de homem que eu tinha o potencial para ser. Eu necessitava efetivar uma reconciliação com aquele homem não nascido e tentar persuadi-lo gentilmente a seguir rumo a sua maturidade.

... eu havia me casado com uma garota agradável e vistosa, com brilho e destreza e todos os instintos de preservação própria saindo pelo ladrão, tive sucesso em, através dos anos, por intermédio de negligência, frieza e traição, transformá-la na imagem exata de minha mãe... Eu não ficava confortável com ninguém que não estivesse me desaprovando. Não importa o quão ardentemente me esforçasse para conseguir as metas impossíveis deles para mim, nunca conseguia fazer nada completamente certo e assim cresci acostumado a este clima de inevitável fracasso. Eu odiava minha mãe, assim eu me vingava dela dando à minha esposa seu papel... Como minha mãe, minha esposa passou a se sentir um pouco envergonhada e desapontada comigo. A configuração e o teor de minha fraqueza definiria a fúria da ressurreição deles, meu fracasso demarcaria a força, o florescer e o resgate deles.

Embora odiasse meu pai, eu expressava este ódio eloqüentemente imitando sua vida, me tornando diariamente mais e mais incapaz, ratificando todas as desanimadoras profecias que minha mãe fez tanto para meu pai quanto para mim. Pensei que tivesse vencido por não me tornar um homem violento, mas até mesmo esta crença desmoronou: minha violência era subterrânea, inevitável. Foi meu silêncio, meus longos afastamentos, que transformei em coisas perigosas. Minha depravação manifestou-se no terrível inverno de olhos azuis. Meu olhar magoado poderia trazer uma idade de gelo para o entardecer mais ensolarado e perfumado. Estava próximo de completar trinta e sete anos de idade, eu havia compreendido como viver uma vida sem sentido, mas uma que poderia imperceptivelmente e inevitavelmente destruir as vidas daqueles a minha volta.

O AMOR NEGATIVO PODE SER TRANSCENDIDO

NOSSOS COMPORTAMENTOS NEGATIVOS NOS LEVAM A SER REJEITADOS E DESAMADOS POR AQUELES CUJA ACEITAÇÃO E AMOR MAIS DESEJAMOS. SE VENCERMOS, PERDEMOS, ESTE É O RESULTADO INEVITÁVEL DA SÍNDROME DO AMOR NEGATIVO.

O Amor Negativo tem um estranho poder sobre nós. Ele interrompe nossa capacidade de amar livremente. Quando adultos, pagamos caro por nossa identificação negativa com nossos pais. Na verdade, vendemos nossas almas. Por exemplo, inconscientemente tentamos reconquistar, em nossos relacionamentos, o amor de Mamãe ou Papai, escolhendo parceiros que manifestem traços como Mamãe, Papai ou ambos. Projetar nossos pais inconsciente e automaticamente em nossos amantes, figuras de autoridade, chefes, amigos, colegas ou professores é conhecido como “transferência”. Isto recria nosso sistema familiar primitivo e projeta o horror da Síndrome do Amor Negativo no momento atual. O resultado é resistência, conflito, dar e receber rejeição, desgosto e perda.

Quando adultos agimos como uma criança amedrontada de oito anos, que faria quase tudo para evitar a dor; ainda que resistamos à ajuda. Quando adultos não temos que nos afastar ou fingir que a dor não existe, embora o Amor Negativo nos induza a acreditar que não podemos lidar com tarefas difíceis. Desperdiçamos nossas vidas evitando as causas dos problemas em nossas vidas, com medo de que encarando nosso sofrimento doerá demais e esperando que de alguma forma tudo irá simplesmente desaparecer. Ao mostrar que eram incapazes de lidar com o sofrimento, de qualquer modo, nossos pais nos desencaminharam. Não é verdade.

A programação do Amor Negativo pode ser “desprogramada” e nosso eu real positivo está sempre aqui. Devido à sua própria programação infantil, nossos pais não sabiam como nutrir a nossa essência perfeita. As suas essências não tinham sido nutridas pelos pais deles. A eles nunca foi ensinado a se honrar, se respeitar e se amar, assim como poderiam nos dar o que nunca tiveram? Fossem eles capazes de se honrar, teriam nos honrado e teríamos sido nutridos de amor e criados com um forte senso de segurança interna.

Finalmente, para nos livrar do Amor Negativo, devemos

  •  
    • encontrar compreensão, sem condenação, por nossos pais biológicos e nossos pais substitutos;
    • encontrar compaixão pela infância que viveram;
    • encontrar perdão pelo que fizeram conosco e pelo que fizeram com eles;
    • encontrar total aceitação por eles, por quem e o que foram e são;
    • amá-los pelo que são, sem expectativas.

Quando formos capazes de verdadeiramente perdoar nossos pais nos níveis mais profundos de nosso ser, experimental e emocional assim como intelectualmente, poderemos então nos perdoar. O perdão quebra nossa necessidade e dependência interna dos pais de nossa infância, nos permitindo ficar livres dos comportamentos negativos compulsivos, que usam e abusam de nós.

Embora o trabalho do Processo não erradique um comportamento particular, ele elimina a necessidade de atuar com o comportamento compulsiva e automaticamente. Podemos então escolher o comportamento que é apropriado para nós num dado momento e situação. E isto é o que compreendemos por transcendência: escolha que está livre das influências de nossos padrões herdados.

Quando chegarmos a nos amar plenamente, terminaremos o eterno bate-boca negativo em nossas cabeças e encontraremos paz interior. O trabalho do Processo da Quadrinidade pode realizar isto, não somente intelectual, mas plenamente, em todo o nosso ser.

EXERCÍCIOS DO PROCESSO DA QUADRINIDADE

É hora de ver como isto se aplica a você e a sua vida. Se você está querendo ser aberto, pode experimentar a verdade da sutil ou não tão sutil miríade de modos pelos quais adotou os padrões de seus pais. John Bradshaw observou que crianças têm a inata “habilidade de defender seus estados de consciência contra ameaças e situações intoleráveis”. Nossa defesa primária contra perceber o Amor Negativo é a “negação”. Quando adultos, libertar-nos dos padrões programados começa pela revivência da própria infância sob a luz de nossa compreensão atual.

Antes de começar estes exercícios, contudo, vamos examinar uma estrutura mental que pode nos desafiar: invalidação, cinismo e ceticismo. Aprendemos a invalidação ao adotarmos padrões de Mamãe, Papai ou ambos ou aprendemos a nos invalidar porque eles nos invalidaram. A auto-invalidação provê a racionalização para desistirmos de nós mesmos, nos manter paralisados em nossos programas negativos. É a negação do valor do que fazemos e do que somos. Dizemos a nós mesmos: “Você não é nada”.“Você não é bom”. “Você nunca vai conseguir”. “Não tente”. “Você é um perdedor”.

Estes padrões do Amor Negativo nos tornam céticos e cínicos, acreditando que não podemos ser livres. Para nos libertar, temos de ser honestos conosco. Temos de estar querendo olhar para quem e o que nos tornamos, com total honestidade. Ao encarar nossa verdade, podemos nos libertar das programadas mentiras comportamentais aprendidas. Devemos ter coragem de sofrer a dor emocional de nossa infância e ao fazê-lo atravessar para o outro lado. É melhor encarar esta dor definitivamente do que carregar a pesada carga e a dor da compulsiva programação do Amor Negativo durante toda nossa vida.

Ninguém vai balançar uma varinha mágica sobre você e fazer tudo desaparecer. Como dizemos a nossos alunos, é você que tem de fazer o trabalho do Processo. Não há fadas madrinhas. Você é o herói e seu próprio salvador. Com orientação e ajuda, você pode se salvar. O combate é intenso e de curta duração, mas o fim resulta em liberdade interior.

Não se apresse enquanto faz os seguintes exercícios. À medida que começar a fazê-los do início ao fim, decida afastar sua descrença e aceitar o que sente e intui. Quando se sentir paralisado, e provavelmente se sentirá, pode ser que um padrão (invalidação, confusão, negação, etc.) esteja firmemente em seu lugar.

Como parte do Processo da Quadrinidade, classificamos centenas de comportamentos, traços e padrões adotados sob uma variedade de listas de traços. Os traços seguintes estão na lista “Desatencioso / Não dá apoio”. Honestamente olhe e veja o que na lista descreve sua Mãe ou Pai. Em minha experiência, a maioria das pessoas tenta fingir que nossa criação foi melhor do que na realidade foi.

Passe para as duas próximas páginas e leia do início ao fim as listas. Ponha uma marca no quadrado próximo a cada traço, atitude, admoestação ou declaração que se aplica tanto para sua Mãe quanto para seu Pai ou para ambos. Retornaremos a esta lista após um outro exercício.

DESATENCIOSO / NÃO DÁ APOIO

Traços do Amor Negativo

Mãe Pai Eu

q q q Não dá apoio, desatencioso

q q q Faz por obrigação

q q q Frio e sem afeto

q q q Negligente e não confiável

q q q Sem compromisso com os outros

q q q Pouca ou nenhuma demonstração de sentimentos

q q q Insensível / indiferente nas relações

q q q Antipático, sem empatia

q q q Valoriza mais as coisas do que as pessoas

q q q Mesquinho

q q q Desrespeitador do cônjuge /filhos / outros

q q q Esquecido dos outros

q q q Evita elogiar

q q q Ignora o positivo dos outros

q q q Egoísta

Atitudes Negativas

Mãe Pai Eu

q q q Não tenho tempo para você

q q q Meu amor tem limites

q q q Não me importo

q q q Sou mais importante que você

q q q Não consigo lidar com sentimentos

q q q Não posso ser perturbado

Admoestações Negativas (ditas implícita ou explicitamente)

Mãe Pai Eu

q q q Você não é o bastante

q q q Sentimentos não são importantes

q q q Se criar problemas, não vou amar você.

q q q Não me toque

q q q Não conte comigo

q q q Não fale comigo

q q q Não demonstre amor

q q q Crianças devem ser vistas e não ouvidas

q q q Não me conte seus problemas

q q q Não espere nada de mim

q q q Fique fora de minha vista. Fique invisível.

REVIVENDO SUA INFÂNCIA

Agora vamos examinar a interação de sua família inteira. A maneira como Mamãe e Papai se relacionavam entre si, conosco e com nossos irmãos tornaram-se nossa maneira de nos relacionar conosco e com os outros. A maneira de eles viverem e amarem tornou-se nossa maneira. Os conflitos de nossa Mãe e nosso Pai tornaram-se nossos conflitos. Os erros deles se tornaram nossos. A cegueira deles se tornou nossa cegueira. Nosso sistema familiar é o modo de operação para os comportamentos, crenças e padrões do Amor Negativo.

As questões seguintes podem nos ajudar a explorar os padrões da infância e identificar reações automáticas e comportamentos compulsivos. Com esperança elas irão detonar e evocar memórias primárias para você. Os padrões de comportamento atuais precisam ser identificados e então investigados de volta à origem deles em seu sistema familiar.

Eu o convido a olhar honestamente para a realidade de suas experiências da infância. Focalize seus pensamentos e permita-se recordar cenas, situações e experiências que as perguntas despertarão. Elas podem evocar sofrimento, mas é um estágio necessário antes da cura. Dê-se permissão de reviver o passado junto a qualquer infelicidade ou sofrimento.

Se você tiver problemas em relembrar ou tentar visualizar o que aconteceu, simplesmente faça o melhor que puder e aceite qualquer coisa que venha. Ao fazer o trabalho do Processo, é pedido que você seja tanto participante quanto espectador à medida que registra suas memórias e sentimentos. Você pode querer anotar algumas cenas ou incidentes que estas perguntas despertem. Respire profundamente, deixe seu corpo relaxar e esvazie sua mente. Permita que sua mente flutue de volta às memórias da infância. Visualize-se tão pequeno quanto possa. Reviva como foi ser criança para você.

Você se sentiu amado e aceito por Mamãe e Papai? Você foi realmente desejado? Você foi emocionalmente abandonado? Você foi dado para adoção? Mamãe e Papai estavam presentes, mas não estavam nem aí para você? Eles morreram? Se separaram? Como você se descreveria quando criança? Como os outros descreviam você? Obediente? O realizador? O submisso? O tristinho? O doentinho? O zangado? Um rebelde? Um serviçal? Você era um delinqüente? Encrenqueiro? O mártir? Menino mau? Garota problema? Estúpido? O palhaço? Quais eram as ordens e comportamentos não verbais? Por exemplo: “Sorria sempre. Mantenha a fachada. Esconda seus sentimentos verdadeiros”. Você recebia olhares desaprovadores? Sua família era aberta? Eles realmente se comunicavam e se ouviam uns aos outros? Eles eram tensos? Como sua família agia quando estava com raiva? Como era quando você sentia raiva da Mamãe e do Papai? Como você lidava com sua raiva? Sua família gritava e berrava ou eles reprimiam a raiva com um sorriso? Mamãe e Papai ficavam zangados da mesma maneira ou eles eram de pólos opostos? Permita-se relembrar uma cena específica onde a raiva estava sendo manifestada por um ou ambos os pais. Lembre-se de uma cena quando você estava zangado com Mamãe ou Papai. Você a expressou? O que aconteceu? Reviva o que você sentiu.

Seus pais eram mal-humorados ou deprimidos? Eles falavam sobre isso? Eles expressavam e lidavam diretamente com os sentimentos deles? Ou era tudo escondido, reservado e ignorado? Quem era o chefe da família? O que acontecia se você desafiasse seus pais? Você ousava se expressar? Como era a comunicação em sua família? Sobre o que eles falavam? Como eram as conversas, se é que havia alguma? Quem dominava a conversa? Quem nunca dizia o que pensava? Sua Mãe ou seu Pai eram silenciosos, retraídos, educados? Seus pais eram mesquinhos ou esbanjadores? Você ganhava presentes? Eles falavam sobre dinheiro? Eles brigavam por causa disso? Nunca se fala sobre isso? Eles ficavam em apuros financeiros?

Que demonstrações de afeto eram comuns em sua família? Como os membros de sua família reagiam quando se tocavam uns aos outros, se é que o faziam? Mamãe e Papai expressavam afeição física entre eles, se tocando ou abraçando? Seus pais se amavam e demonstravam isso? O que seus pais faziam quando você ou seus irmãos se portavam mal? Como você era castigado? Você era disciplinado com sermões ou era castigado cruelmente, golpeado, surrado ou insultado? Quem castigava você? Como você fugia do castigo? Você voltava da escola para uma casa vazia? Mamãe tinha medo de Papai ou Papai tinha medo de Mamãe? Você tinha medo de algum deles ou dos dois? Você tinha medo de sua irmã ou de seu irmão? Você aterrorizava seus pais, suas irmãs, seus irmãos? Você gostava de sua família? Era divertida, amorosa e alegre? Ou era depressiva, solitária, um nada? Como foi crescer em sua família?

Ao permitir que suas memórias comecem a vir à superfície e ao responder honestamente estas questões, você já reuniu um farto material. O roteiro familiar de sua infância criou camadas de mentiras, fingimentos, padrões e programas do Amor Negativo.

Finalmente retorne ao inicio da lista dos Traços, Atitudes e Admoestações Negativas nas páginas anteriores. Por favor, olhe para sua própria vida. Pergunte-se com muita honestidade, quantos destes traços realmente descrevem minha vida, minhas atitudes, meus comportamentos, meus padrões? Cheque o quadrado na coluna marcada “Eu”. Agora você sabe exatamente de quem você aprendeu estes padrões. Esta é uma conexão prática com a Síndrome do Amor Negativo.

Reconhecer e admitir completamente o quanto somos como nossos pais é muito difícil. É um nível de autoconhecimento que a maioria das pessoas nunca tentou alcançar. Mesmo quando o fazem, algum grau de negação permanece, só permitindo às pessoas admitir as qualidades positivas de seus pais, ou mais acusar seus pais e a elas pela culpa e vergonha que surgem quando agem contra suas melhores intenções. De tempos em tempos, através de trabalho intensivo com o eu, as pessoas reconhecem de verdade o quanto são como seus pais, mas então podem se sentir indefesas por não verem outra possibilidade para a vida delas.

Através de meu trabalho com muitas pessoas por mais de 35 anos, descobri que verdadeira liberdade é possível. Seus padrões do Amor Negativo, embora aprendidos e adotados, podem ser desadotados. Sua essência, sua verdadeira realidade, é como um brilhante diamante. Nunca foi perdida, somente encoberta e escondida, pela sujeira do condicionamento parental negativo. Já não é hora de descobrir seu verdadeiro eu e permitir que seu resplendor brilhe?

RESULTADOS DO PROCESSO DA QUADRINIDADE

O AMOR É O FLUIR, O PROPORCIONAR E O TRANSBORDAR DE BONDADE EMOCIONAL DO CORAÇÃO E DA ALMA PARA VOCÊ MESMO E PARA OS DEMAIS A SUA VOLTA.

O amor é a essência da vida e do próprio universo. Desatrelar seu poder é um acontecimento surpreendente, um verdadeiro presente da Luz. Ninguém pode dizer como sua vida será, que caminho você trilhará. O que posso dizer é que você não pode nem imaginar as maravilhas da vida enquanto está usando as viseiras do Amor Negativo. O Processo da Quadrinidade aclara seu caminho através de uma experiência totalmente nova de sua própria vida. Portas de possibilidades e oportunidades abrir-se-ão de formas imprevisíveis.

O Processo é uma poderosa experiência para a reeducação do amor. Ele integra todos os quatro aspectos do eu: Físico, Intelectual, Emocional e Espiritual ao desatar o nó emocional que nos conecta ao legado do Amor Negativo. Auto-aceitação, perdão por si mesmo, reconhecimento do próprio valor e amor próprio sem adjetivos são a chave para destrancar o poder do verdadeiro amor. Uma vez que as camadas da programação Negativa estejam descascadas, você pode ser livre no presente com amor e paz.

Nada está faltando em nenhum de nós, nosso eu integral positivo está sempre aqui, sempre disponível. Você pode redescobrir e viver consistentemente a partir de sua maravilhosa perfeição, capacidade de amar, dignidade e autenticidade. Satisfação genuína e amor incondicional são não somente possíveis, são seus direitos inalienáveis.

REFERÊNCIAS E NOTAS:

John Bradshaw, Healing the Shame That Blinds You, Health Communications, Inc., 1988

Pat Conroy, The Prince of Tides, Houghton Mifflin Company, 1986

Ralph Waldo Emerson, The Over-Soul

Karen Horney, MD., Our Inner Conflicts, A Constructive Theory of Neurosis. W.W.Norton and Company, Inc., 1945

Thomas Lewis, MD., Fari Amini, MD. and Richard Lannon, MD., A General Theory of Love, Random House, 2000

Alice Miller, For Your Own Good, Farrar, Straus, Giroux, 1983

Claudio Naranjo, MD., The Quadrinity Process: A New Synthesis, 1993 Monograph

Ken Wilber, The Eye of Spirit, Shambhala, 1997




ROBERT HOFFMAN (1921-1997)

Reconhecido por sua capacidade intuitiva, Bob Hoffman era um homem talentoso e generoso dedicado a despertar as pessoas para o fantástico poder do amor que vive dentro de cada um de nós. Ele acreditava que o amor incondicional era um direito de nascença de todo ser humano. Bob Hoffman colocou sua profunda, ainda que elegantemente simples teoria da Síndrome do Amor Negativo, em um poderoso aprendizado vivencial, modalidade conhecida como Processo Hoffman da Quadrinidade.

O insight fundamental de Hoffman veio a ele em 1967. Durante os cinco anos seguintes ele colaborou com psicoterapeutas e psiquiatras para ajudar indivíduos em uma dinâmica um a um. Em 1972, ele e o notável psiquiatra Claudio Naranjo, M.D., começaram a apresentar o método Hoffman como um curso de 13 semanas em formato de grupo. Ele o chamou de “Processo Fischer-Hoffman” em homenagem ao finado Siegfried Fischer, M.D.. Durante os 12 anos seguintes, o Processo Fischer-Hoffman ganhou reputação por conseguir resultados profundos e duradouros.

Em 1976 ele escreveu Getting Divorced from Mother and Dad, publicado por E.P.Dutton and Co., Inc. Foi mais tarde republicado sob o titulo No One is to Blame, Freedom from Compulsive Self-Defeating Behavior.

Em 1985 Hoffman reformulou seu programa em um modelo residencial intensivo de oito dias, renomeou-o de Processo Hoffman da Quadrinidade e iniciou então um período de oito anos de inspirados desenvolvimento e refinamento. Hoje o Processo Hoffman da Quadrinidade é apresentado em mais de doze países para cerca de 5 000 participantes cada ano.

Bob Hoffman aposentou-se do ensino do Processo em 1991. Ele se manteve ativo em seu trabalho até sua morte em 1997.

 

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Para Você Pensar

“A Síndrome do Amor Negativo
e o Modelo da Quadrinidade”
Um Caminho para a Liberdade Pessoal e o Amor

                                                                                                Bob Hoffman